Já sabíamos ao que veio Camila Sosa Villada quando, depois de ter conquistado leitores e crítica com As Malditas, sublinhou esse desígnio no ano passado com a publicação de Tese Sobre Uma Domesticação, «um fragmento de futuro», nas palavras do escritor Édouard Louis. Mas de onde veio este novo fenómeno da literatura latino-americana?
A resposta está em A Viagem Inútil, um romance autobiográfico que nos apresenta o relato cru das origens da autora: a infância dolorosa, a fúria alcoólica do pai, a transsexualidade, a prostituição e a pobreza, esse «inimigo errado. Porque os inimigos fomos nós, as nossas heranças, as nossas tradições, a nossa vocação para o servilismo, a nossa rebeldia reprimida».
Aos 44 anos, Camila recorda que nasceu Christian e que todo o seu percurso aos olhos da família, com êxito no teatro e, mais recentemente na escrita, é A Viagem Inútil. «Não devia haver uma profissão mais inútil do que a escrita. Escrever não dá dinheiro, não compra carros, não constrói casas […] escrever é só perder tempo, a única coisa que temos. A perda.» Paradoxalmente, é na escrita que recorda «uma desforra» para a sua infância sofrida. «Ensinar-me a escrever é o gesto de amor que o meu pai tem para mim […] Depois de aprender a ler e a escrever, essa recordação apaga-se sob as ruínas deixadas pela violência, o alcoolismo, a indiferença e a solidão que sinto desde que nasci até sair de casa, aos 18 anos.»
Citando o La Vanguardia, «o universo de Sosa Villada combina comédia e tragédia, transformando os marginalizados em deuses provocadores de um Olimpo colorido, cruel e terno onde dançam Jean Genet, Frida Kahlo, Lorca, Duras, Almodóvar, Alexievich e García Márquez, algumas das suas influências». É isso, e muito mais, o que poderão encontrar em A Viagem Inútil, uma edição Quetzal, traduzida por Margarida Amado Acosta.