2026-04-23

As primeiras coisas, o início e a memória.

Geoff Dyer e as suas memórias de infância e adolescência num mundo em transformação.

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Aquando da divulgação de Os Últimos Dias de Roger e Outros Finais em Portugal, há três anos, a pergunta de um jornalista deixou Geoff Dyer a pensar, e a situação repetiu-se em Itália: o que queriam saber era se, depois de um livro sobre finais, o escritor britânico estaria a preparar um sobre começos. A resposta surge agora, com um livro de género único – como é apanágio do autor – em que Dyer percorre as suas mais antigas memórias, numa altura em que prepara o regresso a terras lusas, onde vai participar, já em maio, no Festival 5L, em Lisboa. Inícios que também marcam a estreia da dupla de tradução em Portugal, Bruno Vieira Amaral e Susana Almeida, com a chegada de Trabalho de Casa às livrarias a 7 de maio.

Com humor, ironia e inteligência, Geoff Dyer, filho único de uma cozinheira e um operário, nascido num mundo moldado ainda pelo rasto da Grande Depressão e da II Guerra Mundial, relata as suas memórias de início de vida, compondo um retrato de conjunto das mudanças sociais das décadas de 1960 e 1970, em particular, da classe trabalhadora britânica. Recua à primária e à secundária, ao percurso escolar que o levou a Oxford, e, longe de nos dar uma história de dificuldades, revela e celebra as oportunidades conquistadas no pós-guerra das quais beneficiou. E nunca perde o seu estilo cómico (por vezes, hilariante) e erudito, profundo e vivo: os costumes, a família, as casas, os lugares, as brincadeiras, a escola, os desportos, os pequenos interesses amorosos e a génese dos seus grandes e muito variados interesses, que mais tarde viria a desenvolver na escrita. Mostra, em suma, como se começa a viver e como se podem aproveitar as grandes transformações do mundo.