Os índios Osage e o nascimento do FBI
07.07.2017
Quando a realidade é mais assustadora do que a ficção. David Grann relata o maior caso de homicídios em série na história americana – e um dos mais esquecidos.
No início do século XX, a população mais rica per capita não era a parisiense, nem a nova-iorquina: era a dos índios Osage, nos EUA. Desterrados da sua terra de origem para o inóspito Oklahoma, ninguém esperava que, por debaixo daquele solo árido, se viesse a encontrar uma imensa jazida de petróleo. Os cerca de 2000 índios Osage tornaram-se uma atração instantânea para os jornais e revistas da época: recebendo uma percentagem dos lucros das companhias petrolíferas, exibiam a sua fortuna de forma exuberante, comprando carros luxuosos, enviando os seus filhos para universidades europeias, construindo mansões caríssimas – embora essa fortuna tivesse de ser gerida por um tutor branco. 

Misteriosamente, os Osage começaram a ser assassinados – assim como alguns dos que se atreviam a investigar os homicídios. Envenenados, mortos a tiro ou espancados, o número exato de vítimas nunca foi apurado. Ao mesmo tempo que isto acontecia, o Federal Bureau of Investigation (FBI) estava a começar e a matança de uma das famílias Osage tornou-se o primeiro grande caso da agência policial norte-americana. No entanto, o dinheiro do petróleo estava infiltrado até ao mais alto nível, chegando à Casa Branca, e as investigações foram boicotadas, ignoradas ou mesmo suspensas. 

Passados quase cem anos, David Grann, escritor e jornalista da revista New Yorker, passou quase metade de uma década a investigar esta história sinistra e dramática, que envolveu todas as áreas da sociedade: médicos que tratavam os índios e que realizavam as autópsias, advogados que forjavam e falsificavam testamentos, xerifes da região e políticos. 

Um dos livros mais esperados do ano, Assassinos da Lua das Flores é uma narrativa de true crime, que denuncia a forma como os índios Osage foram maltratados, assassinados e condenados ao esquecimento. À boa maneira de uma história de detetives, Grann desenterra provas, entrevista sobreviventes, reconstitui os crimes, atravessando as décadas nevoentas que nos separam destes assassinatos e chegando à verdade que é possível apurar. 

Depois de um feroz leilão pelos direitos de adaptação ao cinema, os mesmos foram adquiridos por cinco milhões de dólares — o preço mais alto na história recente do cinema. Na corrida estavam as produtoras de Brad Pitt, Leonardo DiCaprio e George Clooney. 

Um livro de não-ficção que se lê como um thriller, com a agravante de tudo ser real.